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    TV & Cinema
    DISTORÇÕES - Nei Duclós

    Quando era proibido ter dúvidas e ninguém podia desconfiar de nada, o mundo se assentava em princípios eternos.


     Eles foram varridos mais tarde quando Baudelaire publicou suas “Flores do Mal” e Marcel Duchamp decidiu que seu mictório era arte. A diferença entre tradição e ruptura gerou impasses. Uma poltrona antiga foi concebida para sentar, um celebrado banco de design ultra chic é feito para expor. Uma obra de Oscar Niemeyer é um encanto para os olhos, mas vai passar uma tarde de verão nos seus ambientes de concreto.

    Na poesia, é infinita a capacidade de produzir coisas sem nenhum significado. O romance chegou a perder a linhagem narrativa, que fazia a cumplicidade entre a curiosidade do leitor e a maestria do autor. Retomou, mas com excesso de pipas e Kabul. O cinema é um espanto. Mata-se milhões em frente às câmaras para públicos cada vez mais anestesiados.

    Se o cinema de autor começa a dar sinais de vida, ele chega sem a radicalidade que o definia. Passou a fase de obras-primas insuperáveis, que entrou em descenso a partir do aperto sobre a Sétima Arte, indústria estratégica por excelência. Todos tiveram chances de produzir seus filmes de propaganda, a exemplo do modelo hitlerista. CIA, FBI, Pentágono, Marinha, Serviço Secreto, lobby dos advogados contrataram estrelas, diretores e roteiristas por milhões para provarem como são necessários à humanidade.

    Enquanto isso, fica no limbo filmes fundamentais como “O Intendente Sansho”, de Kenji Mizoguchi, ou “O Barba Ruiva”, “Céu e Inferno” e “Cão Danado”, de Akira Kurosawa. A majestade em Luchino Visconti, a erudição em Godard, a grandeza épica em David Lean, a civilização popular em Vittorio de Sica, o mágico realismo em Fellini, tudo ficou para trás. Hoje, arte em cinema é alvo de deboche. Triunfou a nulidade posuda de filmes pomposamente descartáveis e de bilheteria fácil.

    Os mestres são esquecidos, enquanto cresce a corrida arrivista. A vanguarda foi clonada pelo oportunismo. Perdeu-se a capacidade de somar, unindo o acervo acumulado e as experimentações. Faz falta sentar num tradicional banco de praça. Haveria algo mais inovador do que usufruir, sem medo e com relativo conforto, uma porção do espaço público?

    RETORNO - 1. Crônica publicada nesta terça-feira, dia 24 de fevereiro de 1009, no caderno
    Variedades, do Diário Catarinense. 2. Imagem desta edição: Curva dos Amores, Rio de Janeiro, 1950. Vejam que curvas do Rio antigo, infinitamente superiores às curvas da capital artificial construída pela megalomania e que serviu para destruir o perfil do país soberano. Depois me digam se o que vemos aqui é algo a ser esquecido, descartado como velharia. Nunca é demais lembrar: 1950, era Vargas. Tirei a foto do belíssimo blog de Carlos Henrique Brack, "Curiosidades cariocas".


     


    Pescado do blog de Nei Duclós, OUTUBRO.


     


    O Lobo, 24 de fevereiro de 2009.



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