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    Araken Vaz Galvão
    O Tupi Nosso de Cada Dia (I) - Araken Vaz Galvão

    A língua tupi entrou na minha vida de forma inesperada. Segundo contava minha mãe (já falecida), até o dia do meu batizado eu ainda não tinha nome.

                         A opção do meu pai – germanófilo inveterado – era por Kepler(1), o mesmo nome que tinha sido dado a um dos meus irmãos – o terceiro de uma leva de oito – que faleceu antes dos três anos. Minha mãe, temerosa de que eu – que viria a ser o caçula – viesse também a morrer, opõe-se terminantemente. Surgiu o nome de Sebastião – como o rei prometido, também morto jovem e de forma misteriosa – que minha mãe também recusou, não pela possibilidade de morte prematura, mas pela fatalidade de vir a ser chamado de Tião(2). Que horror! Filho meu não terá esse nome.


     


    Minha madrinha, Julita – também já falecida – interveio com uma solução romântica, não no sentido que se dá comumente a esta palavra, mas indo no romantismo brasileiro buscar o nome que seria a solução. Há um belo romance – disse ela –, Iracema, que tem o nome também muito bonito: Araken(3) (ela poderia der dito Arakem ou mesmo Araquém, que isso nunca será comprovado), que vem a ser o pai de Iracema. Assim fui batizado. Dez anos mais tarde, quando fui registrado(4), o escrivão, o senhor Francisco de Moreira Rios, grafou o meu nome com k e ene  e eu fiquei sendo Araken Vaz Galvão.


     


    Assim o Tupi entrou em minha vida pela primeira vez. Melhor dizendo, deu identidade a um ser que apenas começava a existir – pelo menos a existir socialmente, já que civilmente demorou um pouco mais –, porém eu ainda não tinha o grau de compreensão para saber que aquele nome, Araken, era uma palavra tupi.


     


    Nasci no município de Jequié. Hoje sei que Jequié, cuja forma correta é Tikí-é, significa “o covo(5) de forma diversa. Entretanto, o vocábulo pode ter procedido da alteração de Yaquié, palavra da língua dos Camacãs, para exprimir onça, cachorro”, isto na concepção de Teodoro Sampaio. Já Falcão afirma que a palavra se formou pela junção de Jequi (covo) mais eé (arrastar), significando “covo de arrasto” ou “rio do covo”. Podendo ser ainda “covo diferente, que não é como os demais”.


     


    Quando eu tinha 4 anos, já armazenando minhas primeiras vivências, que viriam a formar minha memória, meu pai já tinha sua própria fazenda, a São Bernardo, no município de Rio Novo. Mais tarde soube que este município passara a chamar-se Ipiaú. E esta é uma palavra tupi. E esta tem (ou pode ter), ao que parece, significados múltiplos. “Falcão dá, para ela, quatro opções: O peixe que ‘tem a pele manchada’, e cita a sardinha e uma variedade de piau; Rio Novo é a outra opção, a qual foi durante muitos anos o nome daquele município que eu morei na minha primeira infância (às margens do rio de Contas). A terceira opção seria uma derivação de IBIAÚ, que Falcão explica ser uma ‘variedade de peixe de água doce’. Por último, esta palavra seria uma derivação de AIOI-AÚBA, que significa “falsa anchova”.


     


    De Rio Novo (Ipiaú), meu pai decidiu comprar terras em Minas, e empreendeu, com a família, uma viagem que durou um ano. O primeiro trecho foi de canoa(6), até Itabira, que Sampaio registra como “pedra levantada ou empinada”, Falcão o faz, mais ou menos, da mesma forma: YTÁ (pedra) mais APYRA (cume, cabeça, ponta) “ponta da rocha, pico do rochedo”. Muitos anos mais tarde, quando voltei definitivamente para a Bahia, procurei por Itabira e não a encontrei. Intrigado, indaguei. Tinha mudando de nome, agora era Ubaitaba, palavra tupi que Sampaio não registra, cita apenas Ubá-y, que significa “Rio das frutas”, alertando que pode ser a corrupção de uyba-y, ou seja, o “rio das canas bravas”. Falcão, por seu lado, diz que esta palavra é formada pela junção de Ubá (canoa) com I (água), mais Taba (Pêlo, felpa, cordéis), significando “rio das canoas com limo”. Como segunda opção dá “porto das canoas”.


     


    Entretanto, estou adiantando-me aos fatos, fugindo da ordem cronológica de como o tupi entrou na minha vida. Estava indo, melhor, sendo levado para Minas, tinha menos que quatro anos, lembro-me, pois, de poucas coisas. De Itabira (Ubaitaba) fomos para Itabuna. Novamente o tupi. Para essa palavra, Falcão dá duas opções: “Lajes pretas ou pedras chatas pretas”. Composta de: ITA-BUNA. E, citando Tibiriçá, oferece a opção de “Aldeia escura, aldeia negra”, assim composta: I-TAB-UMA. Sampaio não a registra.


     


    Como disse, dessa viagem, pouco me lembro. Algumas palavras, normalmente nome de alguma cidade. Como é o caso de Aimorés. Esta, no dicionário do Falcão, está registrada como derivada de quay, mur, ré, significando “gente diferente”. Sabemos, porém, que esta era a forma como os tupis chamavam os índios botocudos, e os fazia de forma pejorativa. Mais ou menos como “gente diferente, sim, porém, rústica, atrasada, bruta”, que eram seus figadais inimigos. Nesta palavra está o adjetivo AÍ ou AIM, que, como sufixo, é o mesmo que áspero, crespo – segundo Sampaio.


     


    A fazenda onde nasci, no município de Jequié, ficava próxima à vila de Aiquara – hoje, pequeno município emancipado – onde ainda vivem vários Vaz, meus parentes. Aiquara significa AI (preguiça, o animal) QUARA (buraco, morada), o refúgio da preguiça.


     


    Uma das fazendas do meu avô, a que ficava justamente na direção de Aiquara, chamava-se Jacutinga. Esta palavra, sem saber que era tupi, é minha velha conhecida, pois designa uma ave de carne saborosa, difícil de se deixar caçar, o Jacu (Yacú), que, descobri mais tarde, significa esperto, cuidadosos, desconfiado, cauteloso. TINGA, como é sabido, é branco. Logo a palavra significa jacu branco.


     


      


    © Araken Vaz Galvão


    arakenvaz@gmail.com


    arakenvaz.blogspot.com


     


    (1) Johannes Kepler (1571-1630) Cientista alemão que formulou três leis fundamentais da mecânica celeste, conhecidas como Leis de Kepler.


    (2) Que o meu amigo e defensor do meio ambiente, o grande fotógrafo Sebastião Salgado – Tião Salgado – não se sinta atingido com a descriminação pueril de minha mãe.


    (3) Até hoje não consegui descobrir o significado deste nome, que também é meu.


    (4) Naqueles bons tempos tinha muita displicência no registro dos filhos. Meu pai optou por registrar todos assim que minha terminasse sua postura (palavras dele), coisa que só foi feita – todos de uma vez – depois de sua prematura morte.


    (5) Covo é o mesmo que “Armadilha de pesca formada por esteiras armadas em paus e munidas de sapatas de chumbo. Pode ser também côncavo, fundo”.


    (6) Esta palavra, que é de um idioma dos índios aruaques, veio para o nosso idioma, através do espanhol. O nome tupi é Ubá – segundo Falcão.



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